Festival Amazônia Doc divulga os filmes vencedores

Em formato 3 em 1, neste ano o Festival contou com três mostras competitivas. Mostra Pan Amazônica principal, Mostra do 1º Festival As Amazonas do Cinema e Mostra Primeiro Olhar, do 1º Curta Escolas.

Foram doze dias de agito, numa ode de amor ao cinema e à Amazônia. O 6º Festival Amazônia Doc encerra esta histórica edição com a divulgação dos filmes vencedores das três mostras competitivas do evento. A cerimônia de premiação aconteceu na noite de quarta, 23, em live transmitida diretamente da Casa Namata, pelo canal de Youtube do festival. Entre discursos emocionados, além de conhecer os ganhadores, o público pôde ter acesso a um panorama geral das ações e também saber um pouco das novidades que estão por vir.

Com maratona de exibições, debates e atividades de formação, tudo em formato online e gratuito, este ano o Amazônia Doc inovou em diversos aspectos. Realizado desde 2009, nesta edição o festival ampliou suas atividades, agregando mais duas iniciativas à programação: o 1º festival “As Amazonas do Cinema”, que reverbera a produção cinematográfica feminina, e o 1º “Curta Escolas”, que incentiva a formação de jovens cineastas, com foco nos alunos da rede pública estadual de ensino.

A realização do Festival Amazônia Doc 3 em 1 é do Instituto Culta da Amazônia, com a Correalização do Instituto Márcio Tuma; patrocínio da Equatorial Energia, por meio da Lei Semear de Incentivo à Cultura – Fundação Cultural do Pará – Governo do Pará. A produção é da ZFilmes; parceria do SESC e apoio cultural da Rede Cultura de Comunicação; Ufpa – Curso de Cinema e Estrela do Norte – Elo Company. Apoio institucional Holofote Virtual.

Os bastidores e as mãos que fazem um grande festival
Na cerimônia de premiação, a emoção pairava no ar. Zienhe Castro – diretora-geral, produtora e curadora do festival – trouxe os números desta edição. As mostras competitivas, dos três festivais, somaram 65 filmes, sendo mais de 50 deles inéditos, oriundos de cinco países da Pan-Amazônia. Contabilizou-se mais de 5 mil acessos às obras na plataforma streaming AmazôniaFlix. Os onze curtas selecionados para o Festival Curta Escolas foram transmitidos em TV aberta, com alcance para 104 municípios paraenses.

“Estes números são extraordinários para um festival como o nosso, que não é de cinema de entretenimento, mas de reflexão e debate. Foi muito desafiador realizar esta edição, fomos atravessados pela pandemia e precisamos nos reinventar, migramos para o mundo online e ainda agregamos mais festival ao Amazônia Doc. Cumprimos nossa missão com resiliência”, conta a diretora-geral.

As ações de formação do festival tiveram excelentes resultados. As oficinas prévias do “Curta Escolas” alcançaram mais de cem alunos, além de duas oficinas especiais para os jovens selecionados pelo festival. Foram realizadas também duas oficinas, duas masterclass, um webinário e oito web-encontros, todos com lotação máxima de participantes.

Para Marco Antônio Moreira, um dos curadores do Amazônia Doc, todo este movimento que o festival propicia é fundamental para um novo olhar sobre o cinema amazônico. “O Amazônia Doc representa a nossa produção. Precisamos descobrir a Amazônia efetivamente, para poder revelá-la ao mundo. Não nos falta talento, o que nos falta é estrutura para produzir e distribuir. E o público tem papel fundamental nesse processo de fortalecimento do audiovisual amazônico”. A curadoria do festival recebeu mais de 300 filmes nesta edição.

Júri participou da cerimônia de forma presencial e virtual
A cerimônia de premiação também contou com as falas de alguns dos integrantes dos juris oficiais das mostras competitivas. Como é o caso de Lilia Melo, professora e coordenadora do TF Cine Clube, do júri do “Curta Escolas”. “Esta iniciativa é uma revolução! Esta garotada está pegando as mazelas que poderiam destruí-los e as transformando em arte”, considera Lilia.

Para Anna Karina de Carvalho, jornalista do júri da mostra de curtas do “As Amazonas do Cinema”, o trabalho de avaliação foi muito difícil. “Tínhamos produções de excelente qualidade, trazendo temáticas diversas. Parabenizo o festival por este recorte de amplas possibilidades”, diz a cineasta, que já participou da programação e curadoria de festivais no Brasil e exterior.

O cineasta Victor Lopes, do júri da mostra de longas do Amazônia Doc, é presença cativa, sendo um dos fundadores do festival. Para ele, o evento é um termômetro que aponta para bons rumos na produção amazônica. “Mais uma vez, o Amazônia Doc vem com produções de altíssimo nível, muito focado na produção amazônica, o que demonstra que mesmo em meio à um período de grandes dificuldades, nosso cinema está mais vivo do que nunca!”.
Também marcaram presença na cerimônia, a atriz e produtora paraense Célia Maracajá, a jornalista paulista Flávia Guerra (SP), e a atriz Wellingta Macêdo, todas integrantes dos júris das mostras do festival.

Com vocês, os vencedores!
Um filme que percorre a rodovia que corta toda a Amazônia brasileira, trazendo para o público a perspectiva de pessoas trans e travestis que vivem às margens deste lugar marcado pelo abandono. O longa metragem paraense “Transamazonia” foi o vencedor do prêmio principal do Festival Amazônia Doc. E aqui, temos um fato histórico: é a primeira vez que uma diretora trans ganha a premiação.

Renata Taylor – que assina o filme junto de Débora Mcdowell e Bea Morbach – estava na cerimônia de premiação e foi surpreendida com a notícia, marcando um dos momentos mais emocionantes da live de encerramento do festival. A escolha foi unânime entre os jurados, que consideraram a direção de extrema precisão.

“Este é meu primeiro filme. Lutamos muito para realizar esse filme, chegamos a ser hostilizadas em certas situações, mas mesmo assim seguimos. Foram três anos de muito trabalho. Para mim, protagonizar esse processo é uma forma de deixar a mensagem que nós, pessoas trans, podemos ocupar qualquer espaço, basta nos dar oportunidade”, conta a estreante diretora, que tem forte atuação no movimento LGBTQ paraense. O filme também foi premiado como melhor direção em longa no Festival Mix da Diversidade, de 2019, em São Paulo.

Na mostra competitiva de longa metragem, destaque também para os ganhadores das categorias Melhor Roteiro, para o filme “Soldados da Borracha”, de Wolney Oliveira, e Melhor Filme pelo júri popular, para “Xadalu e o Jaguerê”, de Tiago Bortolini de Castro, que também ganhou menção honrosa junto com a produção colombiana “Homo botanicus”, de Guillermo Quintero.

Já na mostra competitiva de curta metragem, o prêmio de melhor filme pelo júri especializado foi para “Quentura”, de Mari Corrêa. A produção traz a perspectiva de mulheres indígenas sobre as mudanças climáticas e suas consequências no cotidiano .”Uma pergunta me intrigava: ‘será que as indígenas teriam algo em especial para falar sobre as mudanças climáticas?’ As mulheres trazem a perspectiva da roça, elas são as cuidadoras do alimento da comunidade e têm conhecimento profundo sobre as plantas e seus ciclos. O olhar sensível delas aponta para os impactos dessas mudanças na vida das populações”, explica a diretora, que é fundadora do Instituto Catitu, organização que fomenta a produção audiovisual como ferramenta de expressão para indígenas.
Nas outras categorias da premiação para curtas, temos: Melhor Roteiro para “Ferroada”, de Adriana Barbosa e Bruno Mello de Castro; Menção honrosa para “A praga do cinema brasileiro”, de Zefel Coff e Wiliam Alves; e Melhor Filme pelo júri popular para “Ary y Yo”, da cineasta paraense Adriana de Faria.

As Amazonas do Cinema
A estreia do festival “As Amazonas do Cinema” também rendeu excelentes resultados. Na mostra competitiva de longa, a vitória foi para o filme “Fakir”, de Helena Ignez. Neste documentário, ela nos convida a mergulhar na vida e obra de artistas de origem circense, que extrapolaram os limites do corpo em apresentações que foram sucesso no Brasil, principalmente, na primeira metade do século XX.

“Gostaria de parabenizar ao festival que traz este belíssimo nome, porque me sinto realmente assim, uma amazona! É uma iniciativa de extrema importância diante de tantos retrocessos. Estimular um sentimento de identidade pan-amazônico, nesse momento de queima e destruição, mostra o valor deste festival”, considera Helena Ignez, um dos maiores nomes do cinema nacional.

Os demais prêmios da mostra de longas foram: Melhor Direção para “Currais”, de Sabina Colares e David Aguiar; Menção honrosa para “Duas Company Towns”, de Priscilla Brasil; Prêmio Especial do júri para “Portunõl”, de Thais Fernandes que também levou o prêmio de Melhor Filme pelo júri popular.

Na mostra competitiva de curtas, dois filmes de países vizinhos em destaque. O Melhor Filme para o júri especializado foi o colombiano “Até o fim do mundo”, de Margarita Rodrigues Weweli-Lukana e Juma Gitirana Tapuya Marruá; Melhor Roteiro para “Tesouro escondido do Equador”, de Kata Karáth e Ana Naomi de Sousa, do Equador; Menção honrosa para os filmes “Mulheres Xavantes coletoras de sementes”, de Daniele Bertollini, e “Opará – Morada dos ancestrais”, de Graciela Guarani.

Além de ganhar o prêmio de Menção Honrosa, a cineasta Graciela Guarani também esteve presente no festival com a oficina “Narrativas Originárias”. “A proposta foi de um bate-papo em que através da perspectiva e o olhar de cineastas de seus lugares de pertencimento, a gente pôde discutir as sensações por trás da construção das imagens, refletir e dialogar sobre estes processos de criação”, explica a diretora, que nasceu na aldeia Jaguapiru, na reserva indígena de Dourados do Mato Grosso do Sul.

A Elo Company, selo de distribuição e fomento à produção cinematográfica independente, participou do festival “As Amazonas do Cinema” oferecendo o Prêmio Elas de Distribuição, concedido ao filme “Rosa Vênus”, de Marcela More.

A juventude em foco
A mostra “Primeiro Olhar”, do 1º Festival Curta Escolas, trouxe para o festival a produção dos estudantes da rede pública. Após a realização de oficinas de formação, em parceria com o TF Cine Clube, o festival ajudou a realizar os curtas propostos pelos alunos. O resultado foram 11 vídeos de excelente qualidade, o que dificultou o trabalho do júri.

O jovem Gabriel Fernandes, de 18 anos, é estudante da Escola Dom Calábria, de Marituba. Apaixonado por arte em geral, Gabriel levou para casa o prêmio de Melhor Filme com “Homem na roda”. Na produção, um grupo de jovens garotos da periferia se encontram para conversar sobre assuntos diversos, costurados entre temas como masculinidade, racismo e o lugar de resistência da periferia. “A ideia foi estimular a expressão nossa, como garotos. Falar dos nossos sentimentos para aprender a lidar com eles”, conta Gabriel.

“Famílias periféricas na pandemia”, de Marianna Kali e Renan Kauê, ganhou como Melhor Direção. Na produção dos alunos da escola Paes de Carvalho, eles trouxeram os impactos da pandemia no cotidiano de suas próprias famílias. “Foi uma ideia que surgiu bem em cima da hora, gravamos a rotina de nossas casas nessa quarentena durante um dia. Foi uma experiência linda, uma novidade em nossas vidas”, conta Marianna.

Também ganharam destaque as produções “E aí, pretinha?”, de Mederiá Brandão, Jéssica Paixão e Emanuelle Araújo (Melhor roteiro); “Levanta juventude”, de Henrique Lobato e Vinicius Silva (Melhor filme, júri popular), que também ganhou menção honrosa junto com “Seu Erádio”, de Vanessa Serrão e Rebeka Ferreira. Os filmes podem ser vistos pelo canal do youtube do Festival Amazônia Doc.

Os Troféus do Amazônia Doc 3 em 1
Em mostras competitivas de arte, é tradição os criadores das obras escolhidas pelo júri levarem para casa um objeto que simbolize a vitória. São as conhecidas estatuetas, que sintetizam o conceito do evento em uma peça. E neste ano o Amazônia Doc 3 em 1, por meio dos troféus de duas competições, apresenta a relação de trabalho, afeto e ancestralidade entre dois artistas plásticos da ilha do Marajó, os artesãos Ronaldo Guedes e Brendo Sampaio, que assinam respectivamente os troféus da Mostra Pan Amazônica principal, e da Mostra Primeiro Olhar. Além disso, também foi convidada para confeccionar o troféu Eneida de Moraes, que premiou os filmes selecionados para o 1º Festival As Amazonas do Cinema, da designer de joias paraense Bárbara Müller.

É na ilha do Marajó que começa essa história. Logo na primeira edição do Amazônia Doc, em 2009, Ronaldo Guedes é convidado a conceber o troféu da mostra principal do evento. “Quando Zienhe Castro (diretora do festival) faz esta proposta eu me sinto honrado, mas também desafiado. Como produzir um troféu que expresse a grandiosidade da Amazônia?”, se questiona o artista que reside no município de Soure.

A resposta para esta pergunta ele encontra na naturalidade da sua relação com a arte, que ele mesmo caracteriza como “instintiva”. “Enquanto modelava no barro, desenhei uma figura feminina com braços em intenção de abraçar, confortar e proteger. Sinto que é algo que fala da nossa região, das nossas riquezas naturais e da cultura ancestral. Ali encontrei a representatividade que buscava”, analisa Ronaldo. Todos os anos muda o material. Desta vez, a madeira utilizada foi o Acapu.

A partir do processo de reconhecimento da importância de uma arte identitária, Ronaldo passou a pensar sua produção de maneira mais política. Inaugurou em 2005, o Atelier “Arte Mangue Marajó”, que funciona no quintal da sua casa. “É importante a gente repassar nosso conhecimento, para que a cultura não desapareça. Passei a dar aulas e possibilitar vivências no atelier”, conta o artista, que integra a Associação dos Moradores do Bairro Pacoval (Ampac), que realiza diversas atividades culturais em Soure, como a já conhecida roda de carimbo que agita a cidade aos sábados.

De um jovem artesão para jovens cineastas
Entre as atividades do Atelier, Brendo Sampaio, sobrinho de Ronaldo, conheceu os encantos da modelagem artística. “Sempre gostei muito de desenho e a convite do meu tio passei a trabalhar no Atelier, lixando as peças. Aos poucos comecei a criar também, tanto a talhar madeira como a mexer na cerâmica”, nos conta o jovem de 24 anos, que é o responsável pelo troféu do festival “Curta Escolas”, que estreia este ano no Amazônia Doc, cuja mostra “Primeiro Olhar” foi criada para premiar e incentivar a produção audiovisual entre alunos da escola pública.

O conceito do troféu é uma releitura da marca do festival, com uma roupagem amazônica, que remete à cultura popular. “São obras feitas de madeira, com galhos de jaqueira, em que fazemos um corte e ali é feito o talhe, sem mexer muito no formato do galho, um trabalho bem delicado, mas que ao mesmo tempo é rústico. Usamos também madeira acapu e mogno, alternando os elementos em cada peça”, detalha Brendo.

“Fiquei emocionado quando meu tio me chamou para pensar junto a este troféu, me identifiquei com a ideia e isso me motiva a continuar criando”, revela o artista em formação, demonstrando que o trabalho de educação e valorização da cultura popular que Ronaldo vem construindo já colhe valorosos frutos.

Para cineastas mulheres, Troféu Eneida de Moraes
Neste ano, o Amazônia Doc inovou agregando mais dois festivais à programação. Além do “Curta Escolas”, o evento agora conta também com o “As Amazonas do Cinema”, criado para dar visibilidade à produção audiovisual feminina. Para esta mostra, a premiação homenageia uma das maiores personalidades da cultura paraense, Eneida de Moraes. Quem assina o troféu, com um conceito inovador, é a designer de joias Bárbara Muller.

Batizado com o nome de Eneida, escritora e agitadora cultural que marcou a história do Pará, o troféu apresenta um conceito diferenciado. Bárbara experimentou novos formatos e matérias para expressar a ideia de força e circularidade da energia feminina.

“Quis romper com os formatos fálicos e fazer algo mais cíclico. Trouxe o poder simbólico da figura da onça. Usei a pedra Drusa que tem o desenho circular e cuja formação final demora muitos anos para acontecer”, conta a designer que experimentou também usar madeira do CEMAL (Comércio Ecológico de Madeiras), cujo processo de extração e cuidado busca a harmonia com a floresta. Cada uma das 4 peças desenvolvidas vem com QR Code que aponta a localização exata do lugar de extração.

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