Mário de Andrade e seu amor por Belém

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Mesas e cadeiras de ferro defronte ao Grande Hotel, em 1935

Carta escrita por Mário de Andrade a Manuel Bandeira durante a histórica viagem à Amazônia, em 1927

O modernista Mário de Andrade foi fundamental para a criação do Iphan e da identidade brasileira, processo este iniciado pelo movimento modernista brasileiro, cujo marco foi a Semana de Arte Moderna, em 1922. Múltiplo, atuou não somente em sua área de formação, a musicografia, como também em outras diversas frentes que o fizeram ser reconhecido como principal representante de um Brasil vanguardista e revolucionário. Construiu o conhecimento com viés crítico, responsável pela formação de diversas gerações e pela abordagem política e social da cultura, tirando-a do status de sagrada e inacessível, mediante o entendimento de que o verdadeiro produtor de bens culturais é o povo.
Os relatos da viagem à Amazônia, realizada entre 8 de maio e 15 de agosto de 1927, foram perceptível influência do universo amazônico na construção da sua obra Macunaíma, que veio à luz em 1928, e de seus personagens.
No trecho que segue escreve ao amigo escritor Manuel Bandeira, revelando um entusiasmo aplacado pelo ceticismo, como se o que estivesse por vir dificilmente pudesse superar ou ao menos se igualar ao já visto, vivido e sentido em Belém. Em outra carta comenta sobre o calor de Belém: “Em Belém o calorão dilata os esqueletos e meu corpo ficou exatamente do tamanho da minha alma”.

Por esse mundo de águas, junho, 27

 

Manu,

Estamos numa paradinha pra cortar canarana da margem pros bois de nossos jantares. Amanhã se chega em Manaus e não sei que mais coisas bonitas enxergarei por este mundo de águas. Porém me conquistar mesmo a ponto de ficar doendo no desejo, só Belém me conquistou assim. Meu único ideal de agora em diante é passar uns meses morando no Grande Hotel de Belém. O direito de sentar naquela terrace em frente das mangueiras tapando o teatro da Paz, sentar sem mais nada, chupitando um sorvete de cupuaçu, de açaí. Você que conhece mundo, conhece coisa milhor do que isso, Manu?(…)

Belém eu desejo com dor, desejo como se deseja sexualmente, palavra. Não tenho medo de parecer anormal pra você, por isso que conto esta confissão esquisita mas verdadeira que faço de vida sexual e vida em Belém. Quero Belém como se quer um amor. É inconcebível o amor que Belém despertou em mim…

Mário de Andrade,

Um abraço do Mário.

O autor, pós-viagem, ainda escreve um poema de homenagem à cidade:

Moda do Alegre Porto
(23 de novembro de 1927)

Velas encarnadas de pescadores,
Velas coloridas de todas as cores,
Águas barrosas de rios-mares,
Mangueiras, mangueiras, palmares, palmares,
E a barbadianinha que ficou por lá!…

Que alegre porto,
Belém do Pará!

Que porto alegre, Belém do Pará!
Vamos no mercado, tem mungunzá!
Vamos na baía, tem barco veleiro!
Vamos nas estradas que têm mangueiras!
Vamos no terraço beber guaraná!

Oh alegre porto,
Belém do Pará!

O Sol molengo no pouso ameno,
Calorão batendo que nem um remo,
Que gostosura de dormir de dia!
Que luz! que alegria! que malinconia! (2)
É a barbadianinha que ficou por lá!

Que alegre porto,‎
Belém do Pará!‎

A barbadianinha que ficou por lá
Relando no branco dos moços de linho,
Passeando no Souza, que lindo caminho!
À sombra de enorme e frondosa mangueira,
Depois que choveu a chuva para-já!…

Ôh barbadianinha,
Belém do Pará!

Lá se goza mais que New York ou Viena!
Só cada olhar roxo de cada morena
De tipo mexido, cocktail brasileiro, (3)
Alimenta mais que um açaizeiro,
Nosso gosto doce de homem com mulher!
No Pará se para, nada mais se quer!
Prova tucupi! Prova tacacá!

Que alegre porto,‎
Belém do Pará!‎

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Fonte: Herbário MFS – UEPA
Crédito da foto: Blog da FAU/UFPA

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